(Bruno MenezesVEJA.com)
ssistentes participam de treinamento para a utilização do VAR na fase eliminatória do Campeonato Paulista. Demonstração ocorreu na sede da FPF (Federação Paulista de Futebol), zona oeste de São Paulo (SP) – 22/02/2019(Bruno MenezesVEJA.com)
(Bruno MenezesVEJA.com)
(Bruno MenezesVEJA.com)
(Bruno MenezesVEJA.com)
(Bruno MenezesVEJA.com)

Vou confessar algo que não costumava dizer, nem entre os amigos mais próximos: eu não gostava do VAR. Não que o detestasse, mas, no fundo, torcia por seu fracasso. Ria por dentro a cada trapalhada na sala de vídeo, seja numa final da Copa do Mundo ou em algum jogo irrelevante de liga europeia, e ia logo conferir o que os adoradores da tecnologia no futebol tinham a dizer sobre os erros graves com o auxílio das câmeras – como, por exemplo, o pênalti “fantasma” em Casemiro, do Real Madrid, neste domingo, 24. E sei que muitos amantes da bola, colegas e até ex-árbitros compartilham este sentimento enrustido, ainda que contrarie qualquer conceito lógico e racional. Afinal, como é possível alguém se opor a algo claramente benéfico? No meu caso, pelo mesmo motivo pelo qual relutei em abandonar o Orkut, a locadora de filmes, o celular com jogo da cobrinha ou o carro 1.0 ano 2008: uma espécie de aversão tola e involuntária à modernidade.

Sou daqueles que precisam ver para crer, vivenciar. Meu último avanço tecnológico recente foi criar uma conta no Netflix – o Spotify pode esperar um pouco mais. E foi justamente ao sentar na cadeira do VAR e, principalmente, conversar com apitadores profissionais que revi meus conceitos em relação ao tema. Na semana passada, assisti, na Federação Paulista de Futebol (FPF), a treinamentos dos árbitros e vi como funcionam os aparelhos que serão usados a partir das quartas de final do Campeonato Paulista. O que mais me surpreendeu – positivamente – foi, ironicamente, o aspecto humano, o foco dos alunos, que simularam o trabalho analisando lances controversos de partidas dos campeonatos italianos e inglês.

“Quando pilotamos o VAR, saímos com a musculatura travada, suados. É mais tenso estar aqui do que no campo apitando”, confidenciou o árbitro Flávio Rodrigues de Souza, meu “instrutor”. De fato, a “brincadeira” me causou um surpreendente nervosismo. Na prática, em uma simulação, fui convidado a trabalhar como chefe da sala de VAR e tinha uma função simples: apertar um botão verde a cada lance duvidoso (para alertar o operador de câmeras a meu lado que queria rever uma jogada) e um botão vermelho, quando quisesse me comunicar com o árbitro de campo, que na simulação assistia às mesmas imagens em outro ambiente. É preciso estar extremamente atento e, ao mesmo tempo, entender que a função é quase de coadjuvante.

“O mais difícil neste processo é o árbitro se desprender do uniforme e do apito para colocar aquele fone, sentar na frente da máquina e passar, de forma direta, a melhor informação para o colega de campo. E o fundamental: agir sempre conforme o protocolo”, explica Roberto Perassi, vice-presidente da Comissão de Arbitragem da FPF. As cláusulas pétreas do protocolo estabelecem que o VAR só pode intervir em quatro situações: lances de gol; de pênalti; de cartão vermelho ou amarelo; e erro na identificação de jogadores. Apesar de simples, as normas ainda parecem causar confusão. Os árbitros de vídeo, portanto, devem se acostumar a participar pouquíssimo (há jogos em que o recurso sequer é usado) e, para isso, recebem acompanhamento psicológico. “Analisamos quais árbitros são menos ansiosos e têm mais esse perfil de VAR, e é provável que no futuro tenhamos os especialistas, árbitros apenas de vídeo, assim como ocorre com os bandeirinhas”, explica Perassi.

No meio da atividade, um árbitro aparece com a notícia na tela de seu celular: “A CBF aprovou o VAR em todos os jogos do Brasileirão”, exclamou Thiago Duarte Peixoto aos colegas. Justamente ele que, em 2017 ficou marcado e foi afastado por ter expulsado equivocadamente o volante Gabriel, do Corinthians, em um clássico contra o Palmeiras, ao confundi-lo com Maycon. Seu erro, o de identificação, faz parte do protocolo e, portanto, seria facilmente evitado se houvesse VAR naquela partida. Neste instante, já comecei a refletir sobre a importância do VAR – e também sobre o quanto geralmente somos cruéis com estes senhores, cujas mães são constantemente lembradas nos estádios. A novidade trazida por Peixoto foi celebrada não apenas pelos juízes presentes, que terão chances dobradas de serem escalados (e pagos) nos jogos da Série A, mas também pelos funcionários da empresa britânica Hawk-Eye, gigante do segmento, que já trabalhou na Copa do Mundo e em outros eventos da Fifa e fará o trabalho no Paulista e no Brasileirão – ao custo de 28.000 reais por partida, no caso do Estadual.

De volta a meus dez minutos de terror diante das cinco telas à minha frente, fiz meu “aquecimento” analisando uma vigorosa jogada em bola dividida na Premier League. Em velocidade real, não tive dúvidas de que o atleta de azul atingiu o de branco com um carrinho desleal. Até que o replay me desmentiu de forma cristalina. Na verdade, o de branco deu uma solada digna de cartão vermelho no adversário, que chegou limpo, na bola, deslizando. Tive minha primeira conclusão em pensamento: ‘Caramba, esse trabalho é difícil mesmo. E por que estou suando?’ Outro detalhe: só depois percebi que nem olhei para o rosto dos jogadores envolvidos, ignorei se eram famosos; meus olhos estavam focados apenas nas pernas e travas das chuteiras. É tudo muito mais rápido quando não se está largado no sofá comendo pipoca e tomando uma bebida gelada.

Em seguida, fone no ouvido e dedos próximos aos botões, veio minha prova final, um lance confuso do calcio italiano que terminou em gol – e, portanto, tinha, obrigatoriamente, de ser revisado. Apertei o botão verde várias vezes, pois precisava analisar dois possíveis impedimentos e mais uma sequência de divididas suspeitas. E cometi um erro grave ao pedir para rever uma provável falta da zaga, mas logo me dei conta: como saiu o gol, tanto faz o que a defesa fez, eu não poderia beneficiar o infrator e anular o gol para dar um pênalti. Deveria procurar apenas irregularidades do ataque. Em cerca de dois minutos, dei meu veredicto, afundando o dedo no botão vermelho: confirma, gol legal. “Meus parabéns, você foi bem”, disseram os instrutores, talvez apenas por educação. Senti um grande alívio.

A esta altura, o VAR da minha consciência já estava convencido do quanto este trabalho é difícil, e, claro, benéfico. Os árbitros à minha volta, que quase sempre mantém outras ocupações (são advogados, dentistas, policiais, etc, que duas vezes por semana se vestem de juiz de futebol por pura paixão/maluquice) se mostraram extremamente determinados em fazer bem seus trabalhos. Ednilson Corona, o presidente da comissão, me chamou a atenção para outro detalhe: além de evitar os erros grotescos, o VAR ainda tem um papel educativo. “O jogador vai pensar mil vezes antes de agarrar o outro na área, simular um pênalti, dar uma cusparada, uma solada…”

Eu me despedi de meu “professor” Flávio Rodrigues de Souza desejando um bom fim de semana. “Obrigado. Amanhã apito Palmeiras x Santos”, me respondeu, com olhar orgulhoso. Brinquei, dizendo que deveria ser duro aguentar treinadores de peso, e mais um estádio lotado pressionando. Ele disse que gosta. Esses homens merecem mais respeito.

Fonte: Rede Canal

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here