Prisioneiro mais antigo da Argentina, Carlos Robledo Puch foi sentenciado à prisão perpétua e está encarcerado há mais de 46 anos. Sua história, marcada por assassinatos a sangue frio e muita violência, é contada, com alguma liberdade, no longa argentino O Anjo (El Ángel), do diretor Luis Ortega (Caja Negra, Monobloc) e produção de Pedro Almodóvar (A Pele que Habito, Má Educação), em cartaz no Brasil. 

Interpretado no filme pelo jovem estreante Lorenzo Ferro, Puch cometeu diversos crimes na década de 70 – época em que o filme é ambientado -, quando tinha apenas 19 anos de idade. Por causa de sua aparência “angelical” e delicada, o criminoso ficou conhecido como “O Anjo da Morte”.

O longa não busca ser uma cinebiografia ou um retrato exato da história do assassino, e sim uma produção inspirada em fatos reais, com direito a exageros, recriações e suposições. Em entrevista a VEJA, Ferro afirma que não conhecia a história antes de se envolver com a produção do filme e que teve liberdade para criar sua própria versão do protagonista, apesar de muitos argentinos provavelmente já saberem da trajetória do assassino. “As pessoas já tinham uma ideia prévia na cabeça de como ele era, o que fazia, como se mexia.”

Confira abaixo o que é real e o que é ficção em O Anjo:

Os crimes 

 (//Divulgação)

A produção acompanha a jornada de crimes de Carlitos (como o assassino é chamado no filme) junto com seu companheiro Ramón Peralta (Chino Darín), que inclui roubos e homicídios. De fato, Carlos Robledo Puch foi condenado por dezessete assaltos e onze assassinatos – e, como mostra o longa, o criminoso realmente matou algumas de suas vítimas enquanto elas dormiam. Mas sua lista de crimes na vida real ainda conta com dois sequestros e um estupro, o que foi deixado de fora do filme. 

Na trama, o protagonista vem de uma família bem estruturada, que não passa por grandes problemas financeiros, e Carlitos não rouba por necessidade, mas sim por enxergar no crime uma uma espécie de aventura, uma arte. Assim como o personagem, o assassino real também não vinha de uma família pobre e nunca apresentou motivações concretas para os crimes que cometia. O tribunal responsável por sua condenação, inclusive, o considerou “um psicopata com total capacidade para compreender o caráter criminoso de seus atos”, oriundo de “um lar legítimo e completo, que não sofria problemas de ordem sanitária ou moral”.

O companheiro 

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O personagem de Chino Darín, Ramón, parceiro de Carlitos em grande parte de sua jornada de crimes, realmente existiu – mas se chamava Jorge Ibañez. Assim como no filme, os dois se conheceram no segundo ano do Instituto Cervantes e, juntos, cometeram diversos roubos e assassinatos. Contudo, a relação entre os dois é um dos pontos onde o diretor Luis Ortega toma a maior liberdade artística.

Mesmo que em nenhum momento cheguem a ter algum tipo de relação amorosa de fato, os dois dividem cenas de grande tensão sexual, e o roteiro deixa claro que Carlitos sente pelo amigo algo muito mais forte do que apenas amizade. Na vida real, os boatos sobre sua homossexualidade e sua relação com Ibañez sempre foram presentes na imprensa argentina, porém Puch sempre os negou. Em uma reportagem do site argentino Infobae, o jornalista Rodolfo Palacios afirma que Robledo, ao saber da abordagem da relação dos dois no filme, enviou uma carta ao cineasta Enrique Piñeiro queixando-se que “me fizeram parecer um homossexual”. O jornalista ainda lembra uma entrevista concedida pelo criminoso em 2008, em que ele afirmou: “Odeio homossexuais”.

Morte trágica 

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Em agosto de 1971, Puch dirigia por Buenos Aires, com Ibañez ao seu lado, quando o carro se chocou contra um táxi, levando à morte do companheiro. À época, a polícia investigou e encerrou o caso, classificando-o como acidente, mas rumores sempre aventaram a possibilidade de esse ter sido mais um crime do Anjo da Morte. O site argentino Infobae relembra a decisão da polícia, porém traz uma entrevista com um parente da vítima, que afirma que sua família “está convencida de que ele o matou”, e completa afirmando que Ibañez pretendia deixar a vida do crime: “Carlos o amava e o matou porque Jorge iria deixá-lo”.

Ao retratar o episódio, o longa mais uma vez toma liberdades narrativas, apresentando a versão alimentada pelos rumores. Mostra claramente a intenção do protagonista de matar seu parceiro: ao dirigir por um túnel com Ramón dormindo ao seu lado no banco do passageiro, Carlitos olha uma última vez para o companheiro antes de acelerar, chocando seu veículo com outro que vinha à frente. A próxima cena mostra a mãe de Ramón recebendo a notícia e, em seguida, o velório.

 

Conhecendo o novo parceiro  

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No longa, Carlitos ganha um novo companheiro de crimes, que ele conhece através de Ramón antes de assassiná-lo. Após serem levados à delegacia por estarem dirigindo um veículo sem documentos – o qual eles haviam roubado, obviamente -, o primeiro consegue se safar, mas o outro permanece lá por certo tempo. Quando se reencontram, Ramón apresenta Miguel Prieto (Peter Lanzani), dizendo que o conheceu no período em que passou na delegacia. Os três, então, passam a trabalhar juntos até a morte do primeiro companheiro de Carlitos.

De acordo com o jornal Clarín, na vida real esse encontro se deu de forma diferente: após roubarem duas motos, Carlos Robledo Puch e Jorge Ibañez foram parados pela polícia por estarem dirigindo em alta velocidade. Os dois foram levados à delegacia e Carlitos conseguiu sair na manhã seguinte. Após esse episódio, o criminoso decidiu passar um verão na cidade de Mar Del Plata e lá conheceu Héctor José Somoza (nome real do personagem Miguel Prieto). Os dois tornaram-se amigos e reencontraram-se meses depois em Buenos Aires.

A captura

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No filme, Carlitos é preso após uma tentativa de roubo a uma joalheria. A produção mostra o protagonista arrombando um cofre e descobrindo que, dentro, não havia nada de valor. Miguel Prieto, que tirava um cochilo enquanto isso, fica desconfiado do parceiro, o que leva a uma briga entre os dois e termina com um tiro certeiro em sua cabeça, disparado pelo Anjo. Carlitos acende um maçarico para queimar o companheiro e, algumas cenas depois, é parado por policiais perto de sua casa, que perguntam se ele conhecia Prieto. Ele descaradamente responde que não, mas é levado para a delegacia mesmo assim.

Na vida real, esse episódio se deu de forma semelhante, mas alguns detalhes foram ignorados pelo filme. Após um desentendimento durante um assalto a uma loja de ferragens, Robledo Puch tirou a vida de Somoza com um tiro na cabeça. Ele, então, queimou o rosto e as mãos do parceiro para que não o reconhecessem, mas um pedaço de sua carteira de identidade sobreviveu ao fogo, o que levou os investigadores até os pais da vítima. Eles, por sua vez, revelaram que o filho havia saído com Robledo Puch – o que fez com que os policiais fossem até a casa da avó do criminoso para prendê-lo.

Fonte: Rede Canal

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