De férias do trabalho, coordenador da força-tarefa da Lava Jato deu palestra a advogados e empresários em São Paulo

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15 maio 2019, 23h18

A uma plateia de 900 pessoas entre advogados, consultores e empresários, o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, procurador Deltan Dallagnol, fez nesta quarta-feira, 15, uma palestra motivacional, em São Paulo, descrevendo momentos em que pensou em desistir da operação e até sair do país, e só não o fez por acreditar num “propósito maior”. “Depois de cinco anos eu me sinto realmente cansado e as dificuldades fazem isso aflorar, seja depois do que aconteceu com as dez medidas (contra a corrupção), seja agora mais recentemente. Eu lembro da minha fé e do meu propósito, que é por amor e compaixão, que é para reduzir o sofrimento e a miséria que a corrupção causa”, disse Dallagnol, que está de férias do trabalho, em um evento de compliance organizado por consultores, escritórios de advocacia e empresas de tecnologia, na capital paulista.

Segundo o procurador, ele quase largou a força-tarefa em novembro de 2016, quando os deputados desfiguraram o pacote das Dez Medidas contra a Corrupção no mesmo momento em que população chorava os 71 mortos da queda do avião que levava o time da Chapecoense. “Pela primeira vez, em toda essa história eu tive vontade de desistir porque eu tive a consciência que o melhor que nós podemos fazer é inútil. Eu fiquei arrasado”, afirmou.

O que o motivou a persistir, segundo ele, foi ver o filho tentando construir torres de Lego na sala de casa. Quando as torres ficavam altas, as peças começavam a cair e ele chorava. “O que eu dizia para ele: ‘Não adianta chorar, não vai resolver o problema. Tenta mais, tenta de novo, tenta diferente. Hoje, o Tomas não chora mais quando o Lego cai e eu decidi não desistir”.

No seu discurso de cerca de uma hora, Dallagnol fez uma longa explanação sobre o importância de ter “senso de propósito”, citando autores de auto-ajuda (como Victor Strecher) e pesquisas acadêmicas, que mostram que pessoas com uma direção definida na vida tem menos possibilidade de ataque cardíaco, Alzheimer e insônia, vivem mais e até melhoram a sua atividade sexual, disse ele.

Dallagnol também brincou que ficou com vontade de fazer um Power Point, colocando a palavra “propósito” em um balão no meio e os outros itens ao redor apontando para o centro. “Eu sou bom nisso. Mas tem gente que odeia os meus Power Points”, disse, referindo-se ao slide em que apresentou Lula como o comandante máximo do esquema de corrupção descoberto na Lava Jato – que lhe rendeu um processo na Justiça – já julgado a seu favor – por danos morais. A plateia caiu na risada.

Esta não foi a única brincadeira que Dallagnol fez na palestra. Mais descontraído e extrovertido do que nas coletivas da Lava Jato, ele comentou que é “bem mais bonito” que o personagem que faz o seu papel na série “O Mecanismo”, do Netflix. “Pelo menos é o que me dizem minha mãe e esposa”. Que no Brasil não se fala mais em “dinheiro pra dedéu, mas dinheiro pra Geddel”. Que nem todos os corruptos são psicopatas como o Darth Vader, que saem de casa “pensando em fazer o mal” ouvindo a música do Star Wars. Que o ex-deputado Paulo Maluf “roubou” até o bordão político – “rouba, mas faz”, recorrentemente usado por seus defensores – do ex-governador paulista Ademar de Barros. “Esse homem em quem vocês pensaram (Maluf), até isso ele roubou”. “Como essa aqui é uma palestra sobre ética, tenho que confessar que essa piada não é minha. Eu roubei de outra pessoa”, acrescentou ele, rindo.

No fim, ele fez um apelo para que a plateia se unisse na luta contra a corrupção, que é uma “questão de amor ao próximo, de realização dos direitos humanos e de construção de um país melhor” . “Pode ser que a gente perca ou ganhe, mas só tem uma coisa certa a fazer, é lutar pelo propósito maior”.

Fonte: Rede Canal

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