RIO DE JANEIRO –  Com fortes doses de dramaticidade e euforia, a seleção brasileira cumpriu sua missão, ou melhor, sua obrigação. Assim como na última edição em casa, há 30 anos, levantou o troféu da Copa América no Maracanã, o templo do futebol nacional, ao bater o surpreendente Peru por 3 a 1, na tarde deste domingo, 7, com Gabriel Jesus como protagonista, para o bem e para mal. Pode não ter sido o torneio dos sonhos – na realidade foi um fiasco em relação à organização e até, de forma geral, à qualidade dos jogos –, mas o saldo para o Brasil é positivo: fez 13 gols, levou apenas um, do peruano Paolo Guerrero, e retomou a coroa do continente depois de longos 12 anos. Foi o nono título continental do Brasil, o quinto em casa. O país pentacampeão mundial segue atrás de Uruguai (15 troféus) e Argentina (14) na lista de maiores vencedores da Copa América.

Como de costume, o Maracanã, com quase 70.000 espectadores, foi uma festa, também com forte contribuição dos peruanos, que foram ao campo em bom número e sonhando com uma façanha, o seu próprio Maracanazo – ou Perucanazo, como chamaram alguns jornalistas locais. Também havia protagonistas na arquibancada e, sobretudo, nos camarotes: o presidente Jair Bolsonaro foi ao campo com os ministros Sergio Moro, Paulo Guedes, entre outros; tirou animadas selfies com os fãs, mas não se animou a entrar em campo no intervalo, como fez diante da Argentina;  na hora da premiação, recebeu mais vaias do que aplausos. Já Neymar, a grande ausência do torneio, por lesão, celebrou a conquista dos amigos com o filho Davi Lucca no colo.

Dizia o genial poeta Nelson Rodrigues que “o Maracanã vaia até minuto de silêncio”. Não houve, no entanto, apupos – tampouco silêncio absoluto – durante a homenagem a João Gilberto, o pai da Bossa Nova, morto na véspera aos 88 anos. Quem recebeu vaias, misturadas a aplausos, durante a escalação no telão foi Tite. O treinador pode ter perdido boa parte do prestígio que tinha antes da Copa da Rússia, mas chegou a seu primeiro título pela seleção e, ao menos em números, faz um trabalho incontestável: apenas duas derrotas em 42 jogos.

O primeiro gol teve a participação de três protagonistas da campanha: Daniel Alves, o capitão e líder do time, lançou Gabriel Jesus; o atacante, que depois de desencantar contra a Argentina passou a esbanjar confiança, entortou o lateral Trauco e cruzou na medida para Everton, que finalizou com categoria. O atacante do Grêmio, que começou o torneio como última opção do ataque, ganhou a vaga deixada pelo cortado Neymar e terminou como artilheiro, com três gols, e xodó da torcida. Muito valorizado, deve seguir o rumo de 20 dos 22 colegas de seleção e se aventurar no futebol europeu em breve.

Tabela completa da Copa América 2019

Everton seguiu como a melhor válvula de escape e, com muita personalidade, atormentou o defensor Advíncula. Depois de uma sequência de dribles, recebeu o retorno da arquibancada que gritou “É, Cebolinha”. O jogo ganhou doses surpreendentes de emoção aos 40 minutos, quando o árbitro Roberto Tobar assinalou pênalti de Thiago Silva, que tocou com a mão na bola. O juiz, auxiliado pelo VAR, chegou a revisar o lance, mas manteve o pênalti, cobrado com categoria por Paolo Guerrero. O ex-jogador do Flamengo, muito vaiado durante o jogo, igualou Everton como goleador do torneio. Eis então que apareceu o protagonista dos jogos decisivos: Gabriel Jesus, tão contestado por não marcar em Copas, voltou a balançar as redes, chutando rasteiro, depois de bonita jogada de Arthur – o meia de 22 anos do Barcelona é outro que se firmou como titular absoluto em seu primeiro torneio pela seleção.

No início do segundo tempo, o carioca Philippe Coutinho, cria do Vasco, parecia com tanta vontade de marcar um gol em “casa” que abusou do individualismo após duas belas arrancadas. Ao longo do triênio de trabalho, o pedido mais incisivo de Tite foi para que o time se mantivesse “mentalmente forte”. A equipe, então, passou pelo seu grande teste aos 24 minutos, quando Gabriel Jesus foi expulso depois de dividir no alto com Zambrano. O jogador do Manchester City ficou revoltado com a marcação do chileno Tobar e, um dia depois de Lionel Messi dizer que “a Copa América estava armada para o Brasil”, deixou o campo fazendo sinal de roubo e socando e chutando tudo que via pela frente. Depois, chorou no vestiário, temendo passar de herói a vilão.

Tite decidiu mexer: sacou Firmino e Coutinho para as entradas de Richarlison e Eder Militão. A defesa, ponto mais sólido em todo o campeonato, se manteve firme, apesar da pressão do valente time peruano. E aos 44 minutos, o Brasil matou o jogo em mais um lance bastante controverso decidido pelo chileno Roberto Tobar. Everton arrancou, entrou na área e trombou com Zambrano. O juiz assinalou o pênalti. Depois, foi ao vídeo rever o lance. E confirmou. Na cobrança, Richarlison, que sofreu com uma caxumba ao longo do torneio, teve personalidade, bateu firme, sem chances para Gallese, tirou a camisa e foi para a galera.

O notável time do Peru, que chegou à uma decisão depois de 44 anos, passando pelos favoritos Uruguai e Chile, terminou a Copa América com nove gols sofridos, oito do Brasil. A torcida, empolgada, cantou que o “campeão voltou.”. Convém lembrar que no último título da seleção adulta no estádio, a Copa das Confederações de 2013, se viu festa semelhante, um ano antes do 7 a 1. Desta vez, porém, o futuro parece mais animador. Tite, aliás, foi criticado por não rejuvenescer a equipe, mas terminou campeão com gols de dois jovens de 22 anos (Jesus e Richarlison) e outro de 23 (Everton). O treinador, que disse que permanece no cargo até 2022, ganha fôlego para a sequência do trabalho.

Brasil vence Peru por 3 a 1, no Maracanã, e conquista a Copa América pela nona vez na história – 07/07/2019 (Ricardo Moraes/Reuters)

Fonte: Rede Canal

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