Sérgio Martins

VEJA Música

PianOrquestra, projeto liderado pelo músico Claudio Dauelsberg, mistura o erudito com Bezerra da Silva e Beatles sem se tornar um crossover populista

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11 jul 2019, 21h30 – Publicado em 11 jul 2019, 18h51

O universo erudito por vezes é tomado por uma polarização tão nociva quanto às atuais discussões políticas. Existem aqueles que apostam no tradicionalismo das obras de Bach, Beethoven e Brahms, tocados com orquestra e com toda sisudez que a ocasião exige. Do outro lado dessa discussão estão os que apregoam uma popularização pelo crossover, um monstrengo musical que rendeu nulidades como André Rieu e Andrea Bocelli. O pianista carioca Claudio Dauelsberg, contudo, apresenta uma solução elevada para a convivência entre esses mundos. Músico de formação erudita (tem, por exemplo, um disco dedicado às obras de Bach), passeia também pelo universo da música popular, tendo colaborações com João Bosco e Hermeto Paschoal, entre outros. Dez anos atrás, Dauelsberg colocou em ação seu projeto mais ambicioso: a PianOrquestra, que se apresenta nessa sexta e sábado na Cidade das Artes, no Rio, 18 no Cine Theatro Brasil Vallourec, em Belo Horizonte, e dias 19 e 20 no Clube do Choro, em Brasília.

A PianOrquestra, acreditem, é muito superior ao “nariz de cera” acima, acompanhado pelo serviço obrigatório. Criada há dezesseis anos por Dauelsberg pelo músico e um grupo de alunos, ele utiliza a técnica do “piano preparado”, criada pelo compositor americano John Cage (1912-1992). Basicamente, o aparelho tem o timbre alterado pela inserção de diversos objetos – parafusos, plásticos, borracha etc – entre suas cordas. Seus cinco integrantes (quatro pianistas e uma percussionista, que se alternam por um único piano) abordam um repertório abrangente, que pode ir de autores do século XX como Cage e o estoniano Arvo Pärt ao pop dos Beatles, a sonoridade mineira de Milton Nascimento e o samba de Bezerra da Silva. As brincadeiras impressionam: Lucy in the Sky With Diamonds, do quarteto de Liverpool, chega acompanhada por Twist and Shout e uma breve referência à La Bamba, do roqueiro de origem mexicana Richie Valens; Ponta de Areia, de Nascimento e Fernando Brandt, é enriquecida por deliciosos improvisos jazzísticos e obras de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Claudio Santoro (1919-1989) ganham um medley de interpretação vigorosa. Outro elemento que faz a diferença na PianOrquestra está na coreografia de seus integrantes. Existe uma interação dos músicos com o instrumento que se assemelha a um balé. A ideia de movimento foi desenvolvida a princípio pela cantora e dançarina Mariana Baltar. Dauelsberg confessa que havia uma certa resistência dos músicos – aquela tal “seriedade” do primeiro parágrafo –, mas depois se renderam com gosto aos novos desafios. Hoje essa função é desempenhada por pela dançarina e coreógrafa espanhola Rocio Infante.

 

 

Timeline, novo espetáculo da PianOrquestra, coleciona públicos calorosos e críticas favoráveis por onde é exibido. Na Estônia, terra de Arvo Pärt, eles tocaram suas versões para as obras do compositor e receberam um tratamento de rockstars. “Eles aplaudem educadamente após cada peça. Mas foram à loucura no final do concerto, batiam o pé no chão”, lembra Dauelsberg. Outro grande momento aconteceu em Hamburgo, na Elbphilharmonie, uma das salas de concerto mais modernas da atualidade – e com uma acústica considerada impecável. Dauelsberg lembra que a PianOrquestra foi aplaudida por onze minutos. É compreensível: com uma linguagem acessível e sofisticada, mas sem perder a verve erudita, o quinteto faz música para os olhos e para o coração. É uma terceira e mais certeira via às duas linhas de pensamento que dominam o mercado da música clássica.

Fonte: Rede Canal

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